Pesquisa ainda experimental tenta fazer bactéria Clostridium sporogenes virar uma ferramenta para comer tumores e combater o câncer
A proposta é
fazer com que a bactéria se instale dentro do tumor, destrua a área mais
profunda da massa e, ao mesmo tempo, tenha um mecanismo de controle que impeça
riscos ao restante do organismo.
A pesquisa
ainda está em fase inicial, mas é uma junção de engenharia genética, biologia
sintética e modelagem matemática para tentar resolver um problema que, na
verdade, é antigo: como chegar ao “coração” do tumor sem causar danos ao tecido
saudável.
| O estudo é liderado pelos cientistas Brian Ingalls, Marc Aucoin e Sara Sadr |
Por que usar
uma bactéria contra o câncer?
Tumores que já
estão sólidos costumam ter regiões internas com pouquíssimo oxigênio. Isso
acontece porque o crescimento acelerado das células cancerígenas dificulta a
chegada de sangue no centro da massa.
Porém, esse
detalhe que ajuda o tumor a sobreviver pode se tornar uma fraqueza. Os
pesquisadores escolheram a bactéria Clostridium sporogenes justamente porque
ela só se desenvolve em ambientes sem oxigênio.
Na teoria, ao
ser introduzida no corpo, a bactéria permaneceria dormente até encontrar o
interior do tumor. Ali, começaria a se multiplicar, consumir nutrientes da
região e conseguiria “comer” a massa do tumor de dentro para fora, tendo como
resultado o combate ao câncer.
Já na prática,
os cientistas encontraram um problema: nas bordas do tumor, onde há maior
contato com vasos sanguíneos, a concentração de oxigênio é mais alta. Por isso,
quando o microrganismo chegava a essas áreas, não resistia e morria. Com isso,
parte do tecido cancerígeno podia permanecer viva, abrindo espaço para que o
tumor voltasse a crescer.
Modificação
do gene noxA
Para ampliar o
alcance da bactéria, os cientistas inseriram nela um gene chamado noxA, vindo
da bactéria Clostridium aminovalericum. Esse gene ajuda o microrganismo a lidar
melhor com o oxigênio.
Com essa
alteração, a bactéria passou a tolerar níveis mais altos de oxigênio, o que
pode permitir que ela avance além do centro do tumor. Os resultados dessa etapa
foram publicados em 11 de outubro de 2023 na revista científica Biotechnology
Journal.
Sistema de
segurança para a bactéria
Depois de
deixar os microrganismos mais resistentes ao oxigênio, os cientistas perceberam
que precisavam de um controle, porque eles não queriam que a bactéria ficasse
forte o tempo todo — só quando estivesse dentro do tumor.
Por isso, os
pesquisadores criaram um mecanismo genético que funciona como uma espécie de
sensor de quantidade. O sistema foi descrito em 2025 na revista ACS Synthetic
Biology e usa uma estratégia inspirada na bactéria Staphylococcus aureus.
Na prática, o
sistema de segurança funciona da seguinte forma: quando poucos microrganismos
estão espalhados pelo corpo, o gene que dá resistência ao oxigênio fica
desligado; quando muitas bactérias estão concentradas no mesmo lugar — como
acontece dentro do tumor — o gene é ativado.
Próximos
passos da pesquisa
Nos
experimentos de laboratório, os pesquisadores comprovaram que a bactéria pode
ser modificada para suportar melhor o oxigênio e que o sistema de ativação
genética só funciona quando há uma alta concentração de microrganismos.
Agora, a equipe
trabalha para combinar as duas estratégias — resistência ao oxigênio e ativação
controlada — em uma única versão da bactéria. Depois disso, devem começar os
testes pré-clínicos em modelos tumorais.
Se funcionar
como planejado, a bactéria poderá sobreviver tempo suficiente para eliminar
completamente o tumor e, ao mesmo tempo, perder força ao sair do ambiente com
pouco oxigênio, funcionando como um mecanismo natural de contenção.
A técnica está
longe de chegar aos hospitais, mas representa uma linha de pesquisa diferente
das terapias tradicionais. Em vez de atacar diretamente as células cancerígenas
com drogas ou estimular o sistema imunológico, a proposta é transformar uma
bactéria em uma ferramenta programada para atuar só onde o tumor cria as
condições ideais.
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